História

Nascida oficialmente em 1 de Outubro de 1877 como imperativo para a assistência e o socorro, foi obra de um conjunto de poveiros que, unidos à Câmara Municipal e a outras boas vontades, se entregaram ao trabalho de dotar a então vila, de uma companhia de bombeiros voluntários. São três os homens a quem se ficou a dever a iniciativa: João Pedro de Sousa Campos, António Martinho Fiúza da Silva e Manuel Fortunato de Oliveira Mota os quais, em reunião de 1 de Outubro de 1877, com outras diversas individualidades poveiras, deram início à então denominada Companhia de Bombeiros Voluntários.

Manuel Fortunato de Oliveira Mota, um dos fundadores, engenheiro de profissão, a exercer atividade na Câmara Municipal, assumiu o comando dos voluntários e, logo após, no dia 4 de Novembro, muitos poveiros assistiram aos exercícios públicos realizados no Castelo.

Nos primeiros anos, verificou-se uma grande adesão à causa existindo, inclusivamente uma simbiose umbilical entre a Companhia de Bombeiros Voluntários e a Câmara Municipal, já que a execução ficava a cargo da Companhia e o material era disponibilizado pela Câmara. Embora esta dicotomia fosse essencial aos interesses da população, os constantes atritos entre ambas as partes, originados pelo fervor das ideias e paixões partidárias distintas, conduziram à deterioração da relação institucional e, consequentemente ao desmoronar de alguns projetos. Foi talvez este o motivo mais forte para que a colaboração entre a edilidade, o comando e, quiçá, alguns diretores, até então obtida com sucesso, deixasse de fazer sentido.

Esta divisão, bem patente no seio da associação, despertou a atenção na impressa local que cedo alertou a comunidade para os malefícios que adviriam desta realidade. Neste sentido, a imprensa evocou Cândido A. Landolt, uma figura reconhecida no seio dos Bombeiros que perorou por bombeiros municipais e fez parte dos bombeiros voluntários como “praça ativa”. Numa fase posterior e desiludido pela campanha para os voluntários, Cândido Landolt encontrou um esteio a que se arrimou e que esteve na base do ressurgimento dos bombeiros: Francisco Gonçalves Amorim, conhecido por o “Miroma”.

Francisco Gonçalves Amorim andara pelo Brasil, como tantos outros portugueses, e de lá regressou com notáveis meios de fortuna e com ideias largas sobre benemerência e serviço à comunidade. Ligado por este vínculo comum a Cândido Landolt, Francisco Gonçalves Amorim franqueou ao articulista e ao diretor de o ‘’A INDEPENDÊNCIA” a sua própria casa para as reuniões efetuadas ao longo do mês de dezembro de 1891 e das quais havia de resultar o ressurgimento dos voluntários que viriam, em 6 de Janeiro de 1892, a ser oficialmente reinaugurados.

Em fevereiro de 1892, aquando do naufrágio trágico que enlutou a Póvoa e a região, o renascido corpo de voluntários teve o seu batismo de serviço desdobrando-se em diversos trabalhos de salvamento, socorrismo e auxílio às famílias necessitadas. O resgate e a assistência empreendidos pelos voluntários poveiros, num momento tão delicado, para a população tornaram-nos, aos olhos da mesma e durante largos meses, uma central de socorro.

No entanto, o trabalho desenvolvido pelos bombeiros continuou a não ser uma tarefa fácil mesmo com toda a determinação e influência de Francisco Gonçalves Amorim, a principal figura representativa dos bombeiros, a partir de agosto de 1892.

Embora as relações institucionais entre a Companhia de Bombeiros e a Câmara tivessem sido reatadas, os bombeiros continuavam a estar limitados ao material que a Câmara disponibilizava e a estar sujeitos às mudanças partidárias que a dominavam. Como tal, esta foi uma época marcada por entendimentos e desentendimentos entre as duas entidades. Apenas no final do século XIX, a Câmara cedeu aos bombeiros definitivamente o material imprescindível ao combate de incêndios e ao exercício das suas funções.

Desde a fundação em 1877 até ao início do século XX, a corporação instalou-se em edifícios precários desde dependências camarárias até a um edifício alugado, na década de noventa, cujas condições eram miseráveis. Foi em 1901 que, por ação do então Padre Leite de Morais, são comprados, na Rua Santos Minho, dois terrenos tendo em vista a construção de raiz de um quartel para os bombeiros. Inicialmente, estes foram registados em nome do Padre Morais, dado que o financiamento dos terrenos e da construção do edifício estavam a seu cargo. O quartel foi então inaugurado a 6 de Janeiro de 1902.

Tendo sempre em perspectiva o bem-estar da comunidade, os voluntários poveiros quiseram alargar o âmbito das suas ações. Nados e criados nesta beira-mar tão sedenta de vidas e de barcos, não descansaram enquanto não tiveram, paredes adentro da sua sede, uma secção de socorros a náufragos. Assim, em dezembro de 1920, os bombeiros da Póvoa colocaram em prática essa sua nova atividade, quando acorreram à praia de Santo André com o seu carro lança-cabo e demais material, para socorrer os náufragos dum barco holandês que ali encalhara.

A atestar toda uma existência de dedicação à causa pública foram atribuídas à Real Associação uma lista extensa de condecorações. Entre essas muitas ficam aqui destacadas: a de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito com palma; a Medalha de Ouro da Póvoa de Varzim; e a Medalha de Ouro com duas estrelas da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Baseado no texto de Aguiar da Beira

in Homenagem a Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Varzim – Junho de 2007